Nossa
Senhora da Conceição da Lagoa, na ilha de
Santa Catarina, hoje Florianópolis, capital
do Estado de Santa Catarina.
Filho
legítimo de Pedro Luis e Maria Rosa da
Silveira, ambos nascidos na mesma ilha,
filhos de dois casais açorianos que
emigraram para o sul do Brasil, então
remotas e pouco habitadas plagas da colônia
portuguesa, e que viria, com o passar dos
tempos, e graças à ação dos habitantes
do legendário Portugal, que emigraram para
a América do Sul, se tornar o Brasil, nação
que a duras penas, em ingentes e porfiadas
lutas de seus filhos, emerge entre as
maiores pátrias do mundo nos tempos de
hoje.
Foram
eles os verdadeiros construtores do sul do
Brasil, e seus defensores contra os
invasores estrangeiros, os primeiros
povoadores do sul de nossa pátria.
Além
de Manoel Luis, o casal Pedro Luis e Maria
Rosa teve mais os filhos José, Matheus, João
Luis, Bernardo, Maria e Jacintha.
Manoel
Luis assentou praça como soldado no Exército
em 10 de abril de 1793, com dezesseis anos.
Foi promovido a cabo a quatro de janeiro de
1794, e a furriel a 1º de fevereiro de
1796.
Neste
grau de sua carreira militar, sofreu os
rigores da disciplina militar da época.
Damos
aqui a palavra ao Dr. Fernando Luis Osorio,
seu neto, pois filho do General Osorio, de
quem Manoel Luis da Silva Borges era o pai,
que narra o episódio, na História do
General Osorio, livro de sua autoria.
Neste
posto-furriel, estando uma tarde em exercício
com a sua companhia, não pode conter a
indignação vendo o capitão maltratar um
camarada seu injustamente e saiu a defendê-lo
com palavras moderadas. O capitão não
tolerou a defesa; enraivecendo-se o
insultou, seguindo o insulto de um golpe de
espada que Manoel Luis viu-se forçado a
rebater com a alabarda que empunhava.
Imediatamente
foi preso. Três dias depois, durante uma
noite tormentosa, conseguiu escapar da prisão,
auxiliado pelo mesmo camarada por quem se
sacrificara e que entendera dever-lhe
patentear sua gratidão proporcionando-lhe a
liberdade.
Vencendo
inúmeras dificuldades, iludindo a perseguição,
Manoel Luis tomou o rumo da vizinha província
do Rio Grande do Sul onde, esfarrapado,
faminto e quase extenuado pela fadiga, foi
bater, por acaso, à porta do Tenente Thomaz
José Luis Osorio, na Freguesia de Nossa
Senhora da Conceição do Arroio, originada
em 1742 pela fundação de uma Capela.
O
Tenente o agasalhou carinhosamente,
informado do seu infortúnio; forneceu-lhe,
de tudo quanto precisava e depois lhe
concedeu emprego de peão em suas lavouras.
Meses
decorridos, Manoel Luis, por seu
procedimento irrepreensível, havia captado
a estima de Thomaz José e de toda a sua família;
e o que é mais, sentindo-se enamorado de
Anna Joaquina, a filha mais nova de seu
benfeitor, pediu-a em casamento.
Realizado
o seu consórcio, Manoel Luis e sua mulher
estabeleceram domicílio aí mesmo, na
Conceição do Arroio, e depois em Santo Antônio
da Patrulha, uma das mais antigas povoações
do Rio Grande do Sul, situada a quatorze léguas
da sua capital, na fralda meridional da
Serra Geral, e como Conceição do Arroio
que lhe fica ao sul, essencialmente agrícola
e pastoril.
Continua
ainda o Dr. Fernando Luis Osorio a história
de seu digno avô: Havendo Dom Diogo de
Sousa, Capitão General do Rio Grande do
Sul, recebido ordem de organizar o Exército
de Observação que, em seguida, com o título
de Pacificador penetrou no Estado Oriental,
Manoel Luis apresentou-se-lhe
voluntariamente. Marchou de Porto Alegre,
comandando uma companhia de milicianos. Fez
a Campanha de 1811 a 1812 e voltou
condecorado e elevado ao posto de Capitão a
1º de março de 1812, por distinção.
Outra
prova de seus feitos: trouxe consigo uma
cicatriz produzida por ferimento que
recebera da lança de um indígena dos
Minuanos, que formavam nesses tempos, com os
cruéis Charruas, a vanguarda terrífica e
valorosa nas pelejas que mais interessavam
aos inimigos do Brasil.
Sobrevindo
a campanha de 1816, que terminou em 1821
pela incorporação do Estado Oriental ao
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves,
sob a denominação de Província
Cisplatina, Manoel Luis fê-la toda sem
interrupção.
Esteve
na batalha de Catalan em quatro de janeiro
de 1817. Em combate perdeu três cavalos de
sua montaria. Diogo Arouche de Moraes Lara,
oficial combatente e testemunha presencial,
escrevendo a Memória de tal campanha,
colocou-o dentre “os que se distinguiram
por extraordinário valor”.Foi Manoel Luis
quem deu o sinal de alarme no acampamento,
pressentindo aproximação do inimigo que
veio provocar a batalha. No momento em que,
na madrugada do referido dia quatro, como de
costume fazia todas as manhãs, ajoelhou-se
para rezar, baixando a fronte, divisou o
inimigo por entre o lusco-fusco do
alvorecer, desfechou um tiro para o ar, e
assim preveniu o Exército para a esplêndida
vitória que conseguiu.
Em
seis de fevereiro de 1813, foi ainda por
distinção promovido a Major.
Depois
desta longa campanha de cinco anos, fez
outra: a da Independência do Brasil, contra
os portugueses sitiados em Montevidéu.
Em
1822, requerendo para ser agregado ao seu
Regimento no posto de Tenente-Coronel, a
informação que obteve do Governador das
Armas, conhecido depois pelo título de
Duque de Saldanha, foi a seguinte:
—
“Este oficial é digno pela sua conduta,
préstimo e valor, de merecer a graça que
implora”.
E
o Imperador concedeu-a. Carta Patente de Dom
Pedro I, dada no Rio de Janeiro aos onze
dias de fevereiro de 1824; terceiro da
Independência e do Império.
A
promoção a Tenente-Coronel Agregado foi
por Decreto de 25 de maio de 1822.
Na
Cisplatina foi nomeado comandante da linha
do Uruguai. Comandando a referida linha do
Uruguai, Manoel Luis tinha o seu ponto de
parada no Salto, e aí, descansando um dia,
deitado sobre uma rede, desprende-se desta,
tendo a infelicidade de, com a queda,
quebrar três costelas. Seguiu então para a
Província do Rio Grande do Sul e em Santana
do Livramento, alcançando melhoras, foi
incumbido de reunir gente no município de
Caçapava para engrossar as fileiras do Exército
Brasileiro para enfrentar a revolução da
Cisplatina, capitaneada pelo oriental Juan
Antonio Lavalleja.
Sucedendo
a declaração de guerra entre o Brasil e as
Províncias Unidas do Prata, continuou em
armas e, no dia 31 de outubro de 1826,
transpondo o rio Uruguai para Corrientes, na
Brigada de Cavalaria a que pertencia,
compartilhou da vitória de cinco de
novembro, alcançada no Merinay contra o
inimigo.
Após
a vitória, dirigiu ao Regimento de seu
comando, a seguinte Ordem Regimental:
“Margem do Uruguai, nove de novembro de
1826.
O
Tenente-Coronel comandante do corpo dá os
agradecimentos aos Srs. oficiais, oficiais
inferiores e soldados, pelo distinto
comportamento que, no dia cinco do corrente,
tiveram na frente do inimigo que com valor
atacava a nossa retaguarda, porém sendo por
vós rechaçada a sua tentativa com a maior
intrepidez e coragem, fica cheio da mais
completa satisfação, principalmente por
nessa hora lhe caber a honra de ir à testa
de tão bravos soldados. Camaradas! Eu vos
recomendo e peço que em outra qualquer ação
que a sorte vos destine, a vossa subordinação
e valor sejam iguais, ou maiores; que jamais
deis as costas ao inimigo, não só pelo
risco que corre a vida, como pelo descrédito
e infâmia que podem manchar e denegrir as
vossas heróicas ações. Novamente, repito
os meus justos agradecimentos pela glória
que me cabe de tão feliz resultado, nascido
ao mesmo tempo da boa ordem e disciplina do
Regimento, que confio em vossa honra e brio
conservareis para continuação de mais
alguns feitos.”
Esta
ordem do dia, em seus sucintos termos, bem
retrata o caráter de um verdadeiro chefe
militar que, no comando de seu Regimento de
Cavalaria, guiou sua tropa na peleja
vitoriosa e deu-lhe, após, a lição do
verdadeiro comandante: “jamais deis as
costas ao inimigo”.
Anteriormente
o Visconde da Laguna, General em Chefe do Exército
Brasileiro, mandara, do seu Quartel General
de Montevidéu, em 20 de junho de 1825, ao
Governo Imperial no Rio de Janeiro, uma relação
dos oficiais mais recomendáveis pelos seus
serviços feitos principalmente à causa do
Brasil. Nesta relação incluiu, com estes
termos, a seguinte informação relativa ao
Tenente-Coronel de 2ª linha Manoel Luis:
— “Este oficial comandou um Esquadrão
de Milícias no sítio desta Praça,
desempenhando com muito acerto as suas
obrigações, pelo que o julgo digno da
consideração de Sua Majestade Imperial”.
Em
conseqüência do desastre que sofrera no
Salto, sentiu-se bastante adoentado e
resolveu pedir reforma. Foi-lhe esta
concedida e o Decreto do Governo, datado de
1º de agosto de 1828, declarando que —
“eram longos e distintos os seus serviços”
—, o recompensou com uma pensão de
$360000 réis anuais, sujeitando a sua
aprovação ao Poder Legislativo. Mas esse
Poder, por descuido, não votou a verba
correspondente, de sorte que, Manoel Luis, não
gozou jamais de semelhante pensão.
Reformado,
retirou-se para Caçapava, onde fixou residência
definitiva, adquiriu uma chácara e cuidou
de sua lavoura.
Aí
estava quando, em 1835, rebentou a revolução
no Rio Grande do Sul, de que se seguiu a
guerra civil, que durou quase dez anos. Não
pôde se conter. Correu às armas em defesa
da legalidade contra os revolucionários e,
levando consigo um luzido esquadrão que
reuniu em Caçapava, foi juntar-se ao
comandante das Armas, Coronel Bento Manoel
Ribeiro, acompanhando-o seu filho João Luis
Osorio.
Pouco
depois, feriu-se, por insistência sua, no
combate do Rosário, visto que Bento Manoel
havia resolvido não atacar o inimigo então
comandado por Côrte Real. Nesse combate,
Manoel Luis atacou à frente de seu esquadrão
e, com os companheiros, compartilhou da vitória
que alcançaram. Foi o seu último feito de
armas. Sobrevindo-lhe grave enfermidade do fígado,
não pôde continuar na luta, sendo obrigado
a retirar-se para Caçapava, onde afinal,
rodeado da família e de amigos que o
idolatravam, faleceu em 26 de junho de 1836.
Deixou
a família pobre.
Um
dia, atormentada pelas necessidades,
lembrou-se sua viúva de documentar-se, para
requerer aquela pensão acima referida, que
apesar de decretada, seu marido não
conseguira. Era presidente da província do
Rio Grande do Sul Feliciano Nunes Pires,
que, ao seu requerimento, prestou a seguinte
informação:
“Desde
muitos anos conheci o Tenente-Coronel Manoel
Luis pela sua dedicação ao serviço público
e por seu préstimo nele o que lhe granjeou
decretar-se-lhe uma pensão que durante a
sua vida não chegou a ser aprovada. Ele
faleceu na luta atual em que trabalhava
eficazmente pela integridade do Império.
Seus bens foram, por isso mesmo, estragados
pelos rebeldes. Deixou avultado número de
filhos dos quais os varões, capazes de
pegar em armas, seguem seu patriótico
exemplo”.
Além
de serviços militares, Manoel Luis prestou
serviços de ordem política, ligado ao
Partido Liberal Moderado. Exerceu cargos de
eleição popular, como os de Juiz de Paz e
Vereador-Presidente da Câmara Municipal de
Caçapava. Por seu espírito de justiça,
por sua sensatez e probidade, gozou de invejável
reputação. Seus conselhos eram ouvidos com
acatamento. Dona Anna Joaquina, sua mulher,
sobreviveu-lhe até o ano de 1863, quando
também faleceu.
Além
de uma figura esbelta na sua mocidade,
possuiu ela, em todos os tempos, um coração
virtuoso por excelência. Foi o modelo da
boa esposa e da mãe de família. Revelou
sempre nas atividades, amor ao trabalho, força
de vontade e energia admiráveis. Na ausência
do marido, era quem administrava a lavoura e
dispunha desembaraçadamente dos produtos
das colheitas.
Ela
só pensou no descanso quando foi atingindo
a velhice. Numa de suas cartas a seu filho,
General OSORIO, dizia uma vez: “já vou
caminhando para os setenta anos e ainda
tenho tantos trabalhos, como quando
principiei a vida, ou ainda mais”. Ao lado
do estremecido esposo, teve Dona Anna
Joaquina o seu túmulo em Caçapava.
Agora,
uma explicação se faz necessária.
A
pedido do próprio Manoel Luis Silva Borges,
não lhe herdaram os filhos o sobrenome, porém
sim o de Osorio, querendo, desta forma,
perpetuá-lo por consideração à sua
esposa e ao seu sogro, o Tenente Thomaz José
Luis Osorio, que o protegera na desgraça.
Eis porque se chamava o Marquês do Herval
Manoel Luis Osorio.
A
largos traços, esta foi a vida de um
brasileiro que, de simples soldado, galgou
os postos do Exército até Tenente-Coronel,
em rudes pelejas em prol da independência,
da defesa da nova pátria sul-americana que
surgia e da manutenção do governo do Império
do Brasil, que fez de nossa pátria, já àquelas
épocas, uma grande nação americana. Na
base da dedicação e do amor, constituiu
uma família exemplar cujos numerosos
descendentes, homens e mulheres, dentre os
quais sobressaiu Manoel Luis Osorio que
atingiu no Exército o alto posto de
Marechal do Exército Graduado, foi Senador
do Império e Ministro da Guerra cujo nome
brilha nas páginas da história do Brasil.
A farda de Osorio, na afirmação de Ruy
Barbosa, é cívica, não o discrimina do
povo, confunde-o com ele, de onde surgiu —
o General do Povo; o Marechal gaúcho, temerário;
o grande vulto do herói glorioso.
Apelidado
OSORIO, o "Legendário”, digno foi de
seu pai e, na constituição de nova família,
dizer se pode que foi, em grande parte,
continuador da obra do casal Manoel Luis da
Silva Borges e Anna Joaquina Luiza Osorio,
eminentes brasileiros a quem o nosso povo, o
Brasil enfim, muitíssimo deve.