SÍNTESE DOS DADOS BIOGRÁFICOS DO
TENENTE-CORONEL MANOEL LUIS DA SILVA BORGES,
PAI DO GENERAL OSORIO
General de Brigada Ref Felicíssimo de Azevedo Aveline
 

A disciplina militar prestante

Não se aprende, Senhor, na fantasia,

Sonhando, imaginando ou estudando,

Senão vendo, tratando e pelejando.

(Os Lusíadas. Luís de Camões, 153 — Canto Décimo)

Nasceu Manoel Luis da Silva Borges no ano de 1777, na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, na ilha de Santa Catarina, hoje Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina. 

Filho legítimo de Pedro Luis e Maria Rosa da Silveira, ambos nascidos na mesma ilha, filhos de dois casais açorianos que emigraram para o sul do Brasil, então remotas e pouco habitadas plagas da colônia portuguesa, e que viria, com o passar dos tempos, e graças à ação dos habitantes do legendário Portugal, que emigraram para a América do Sul, se tornar o Brasil, nação que a duras penas, em ingentes e porfiadas lutas de seus filhos, emerge entre as maiores pátrias do mundo nos tempos de hoje. 

Foram eles os verdadeiros construtores do sul do Brasil, e seus defensores contra os invasores estrangeiros, os primeiros povoadores do sul de nossa pátria. 

Além de Manoel Luis, o casal Pedro Luis e Maria Rosa teve mais os filhos José, Matheus, João Luis, Bernardo, Maria e Jacintha. 

Manoel Luis assentou praça como soldado no Exército em 10 de abril de 1793, com dezesseis anos. Foi promovido a cabo a quatro de janeiro de 1794, e a furriel a 1º de fevereiro de 1796. 

Neste grau de sua carreira militar, sofreu os rigores da disciplina militar da época. 

Damos aqui a palavra ao Dr. Fernando Luis Osorio, seu neto, pois filho do General Osorio, de quem Manoel Luis da Silva Borges era o pai, que narra o episódio, na História do General Osorio, livro de sua autoria. 

Neste posto-furriel, estando uma tarde em exercício com a sua companhia, não pode conter a indignação vendo o capitão maltratar um camarada seu injustamente e saiu a defendê-lo com palavras moderadas. O capitão não tolerou a defesa; enraivecendo-se o insultou, seguindo o insulto de um golpe de espada que Manoel Luis viu-se forçado a rebater com a alabarda que empunhava. 

Imediatamente foi preso. Três dias depois, durante uma noite tormentosa, conseguiu escapar da prisão, auxiliado pelo mesmo camarada por quem se sacrificara e que entendera dever-lhe patentear sua gratidão proporcionando-lhe a liberdade. 

Vencendo inúmeras dificuldades, iludindo a perseguição, Manoel Luis tomou o rumo da vizinha província do Rio Grande do Sul onde, esfarrapado, faminto e quase extenuado pela fadiga, foi bater, por acaso, à porta do Tenente Thomaz José Luis Osorio, na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio, originada em 1742 pela fundação de uma Capela. 

O Tenente o agasalhou carinhosamente, informado do seu infortúnio; forneceu-lhe, de tudo quanto precisava e depois lhe concedeu emprego de peão em suas lavouras. 

Meses decorridos, Manoel Luis, por seu procedimento irrepreensível, havia captado a estima de Thomaz José e de toda a sua família; e o que é mais, sentindo-se enamorado de Anna Joaquina, a filha mais nova de seu benfeitor, pediu-a em casamento. 

Realizado o seu consórcio, Manoel Luis e sua mulher estabeleceram domicílio aí mesmo, na Conceição do Arroio, e depois em Santo Antônio da Patrulha, uma das mais antigas povoações do Rio Grande do Sul, situada a quatorze léguas da sua capital, na fralda meridional da Serra Geral, e como Conceição do Arroio que lhe fica ao sul, essencialmente agrícola e pastoril. 

Continua ainda o Dr. Fernando Luis Osorio a história de seu digno avô: Havendo Dom Diogo de Sousa, Capitão General do Rio Grande do Sul, recebido ordem de organizar o Exército de Observação que, em seguida, com o título de Pacificador penetrou no Estado Oriental, Manoel Luis apresentou-se-lhe voluntariamente. Marchou de Porto Alegre, comandando uma companhia de milicianos. Fez a Campanha de 1811 a 1812 e voltou condecorado e elevado ao posto de Capitão a 1º de março de 1812, por distinção. 

Outra prova de seus feitos: trouxe consigo uma cicatriz produzida por ferimento que recebera da lança de um indígena dos Minuanos, que formavam nesses tempos, com os cruéis Charruas, a vanguarda terrífica e valorosa nas pelejas que mais interessavam aos inimigos do Brasil. 

Sobrevindo a campanha de 1816, que terminou em 1821 pela incorporação do Estado Oriental ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sob a denominação de Província Cisplatina, Manoel Luis fê-la toda sem interrupção. 

Esteve na batalha de Catalan em quatro de janeiro de 1817. Em combate perdeu três cavalos de sua montaria. Diogo Arouche de Moraes Lara, oficial combatente e testemunha presencial, escrevendo a Memória de tal campanha, colocou-o dentre “os que se distinguiram por extraordinário valor”.Foi Manoel Luis quem deu o sinal de alarme no acampamento, pressentindo aproximação do inimigo que veio provocar a batalha. No momento em que, na madrugada do referido dia quatro, como de costume fazia todas as manhãs, ajoelhou-se para rezar, baixando a fronte, divisou o inimigo por entre o lusco-fusco do alvorecer, desfechou um tiro para o ar, e assim preveniu o Exército para a esplêndida vitória que conseguiu. 

Em seis de fevereiro de 1813, foi ainda por distinção promovido a Major. 

Depois desta longa campanha de cinco anos, fez outra: a da Independência do Brasil, contra os portugueses sitiados em Montevidéu. 

Em 1822, requerendo para ser agregado ao seu Regimento no posto de Tenente-Coronel, a informação que obteve do Governador das Armas, conhecido depois pelo título de Duque de Saldanha, foi a seguinte:

— “Este oficial é digno pela sua conduta, préstimo e valor, de merecer a graça que implora”. 

E o Imperador concedeu-a. Carta Patente de Dom Pedro I, dada no Rio de Janeiro aos onze dias de fevereiro de 1824; terceiro da Independência e do Império. 

A promoção a Tenente-Coronel Agregado foi por Decreto de 25 de maio de 1822. 

Na Cisplatina foi nomeado comandante da linha do Uruguai. Comandando a referida linha do Uruguai, Manoel Luis tinha o seu ponto de parada no Salto, e aí, descansando um dia, deitado sobre uma rede, desprende-se desta, tendo a infelicidade de, com a queda, quebrar três costelas. Seguiu então para a Província do Rio Grande do Sul e em Santana do Livramento, alcançando melhoras, foi incumbido de reunir gente no município de Caçapava para engrossar as fileiras do Exército Brasileiro para enfrentar a revolução da Cisplatina, capitaneada pelo oriental Juan Antonio Lavalleja. 

Sucedendo a declaração de guerra entre o Brasil e as Províncias Unidas do Prata, continuou em armas e, no dia 31 de outubro de 1826, transpondo o rio Uruguai para Corrientes, na Brigada de Cavalaria a que pertencia, compartilhou da vitória de cinco de novembro, alcançada no Merinay contra o inimigo. 

Após a vitória, dirigiu ao Regimento de seu comando, a seguinte Ordem Regimental: “Margem do Uruguai, nove de novembro de 1826. 

O Tenente-Coronel comandante do corpo dá os agradecimentos aos Srs. oficiais, oficiais inferiores e soldados, pelo distinto comportamento que, no dia cinco do corrente, tiveram na frente do inimigo que com valor atacava a nossa retaguarda, porém sendo por vós rechaçada a sua tentativa com a maior intrepidez e coragem, fica cheio da mais completa satisfação, principalmente por nessa hora lhe caber a honra de ir à testa de tão bravos soldados. Camaradas! Eu vos recomendo e peço que em outra qualquer ação que a sorte vos destine, a vossa subordinação e valor sejam iguais, ou maiores; que jamais deis as costas ao inimigo, não só pelo risco que corre a vida, como pelo descrédito e infâmia que podem manchar e denegrir as vossas heróicas ações. Novamente, repito os meus justos agradecimentos pela glória que me cabe de tão feliz resultado, nascido ao mesmo tempo da boa ordem e disciplina do Regimento, que confio em vossa honra e brio conservareis para continuação de mais alguns feitos.” 

Esta ordem do dia, em seus sucintos termos, bem retrata o caráter de um verdadeiro chefe militar que, no comando de seu Regimento de Cavalaria, guiou sua tropa na peleja vitoriosa e deu-lhe, após, a lição do verdadeiro comandante: “jamais deis as costas ao inimigo”. 

Anteriormente o Visconde da Laguna, General em Chefe do Exército Brasileiro, mandara, do seu Quartel General de Montevidéu, em 20 de junho de 1825, ao Governo Imperial no Rio de Janeiro, uma relação dos oficiais mais recomendáveis pelos seus serviços feitos principalmente à causa do Brasil. Nesta relação incluiu, com estes termos, a seguinte informação relativa ao Tenente-Coronel de 2ª linha Manoel Luis: — “Este oficial comandou um Esquadrão de Milícias no sítio desta Praça, desempenhando com muito acerto as suas obrigações, pelo que o julgo digno da consideração de Sua Majestade Imperial”. 

Em conseqüência do desastre que sofrera no Salto, sentiu-se bastante adoentado e resolveu pedir reforma. Foi-lhe esta concedida e o Decreto do Governo, datado de 1º de agosto de 1828, declarando que — “eram longos e distintos os seus serviços” —, o recompensou com uma pensão de $360000 réis anuais, sujeitando a sua aprovação ao Poder Legislativo. Mas esse Poder, por descuido, não votou a verba correspondente, de sorte que, Manoel Luis, não gozou jamais de semelhante pensão. 

Reformado, retirou-se para Caçapava, onde fixou residência definitiva, adquiriu uma chácara e cuidou de sua lavoura. 

Aí estava quando, em 1835, rebentou a revolução no Rio Grande do Sul, de que se seguiu a guerra civil, que durou quase dez anos. Não pôde se conter. Correu às armas em defesa da legalidade contra os revolucionários e, levando consigo um luzido esquadrão que reuniu em Caçapava, foi juntar-se ao comandante das Armas, Coronel Bento Manoel Ribeiro, acompanhando-o seu filho João Luis Osorio. 

Pouco depois, feriu-se, por insistência sua, no combate do Rosário, visto que Bento Manoel havia resolvido não atacar o inimigo então comandado por Côrte Real. Nesse combate, Manoel Luis atacou à frente de seu esquadrão e, com os companheiros, compartilhou da vitória que alcançaram. Foi o seu último feito de armas. Sobrevindo-lhe grave enfermidade do fígado, não pôde continuar na luta, sendo obrigado a retirar-se para Caçapava, onde afinal, rodeado da família e de amigos que o idolatravam, faleceu em 26 de junho de 1836.  

Deixou a família pobre. 

Um dia, atormentada pelas necessidades, lembrou-se sua viúva de documentar-se, para requerer aquela pensão acima referida, que apesar de decretada, seu marido não conseguira. Era presidente da província do Rio Grande do Sul Feliciano Nunes Pires, que, ao seu requerimento, prestou a seguinte informação:

“Desde muitos anos conheci o Tenente-Coronel Manoel Luis pela sua dedicação ao serviço público e por seu préstimo nele o que lhe granjeou decretar-se-lhe uma pensão que durante a sua vida não chegou a ser aprovada. Ele faleceu na luta atual em que trabalhava eficazmente pela integridade do Império. Seus bens foram, por isso mesmo, estragados pelos rebeldes. Deixou avultado número de filhos dos quais os varões, capazes de pegar em armas, seguem seu patriótico exemplo”.  

Além de serviços militares, Manoel Luis prestou serviços de ordem política, ligado ao Partido Liberal Moderado. Exerceu cargos de eleição popular, como os de Juiz de Paz e Vereador-Presidente da Câmara Municipal de Caçapava. Por seu espírito de justiça, por sua sensatez e probidade, gozou de invejável reputação. Seus conselhos eram ouvidos com acatamento.   

Dona Anna Joaquina, sua mulher, sobreviveu-lhe até o ano de 1863, quando também faleceu.  

Além de uma figura esbelta na sua mocidade, possuiu ela, em todos os tempos, um coração virtuoso por excelência. Foi o modelo da boa esposa e da mãe de família. Revelou sempre nas atividades, amor ao trabalho, força de vontade e energia admiráveis. Na ausência do marido, era quem administrava a lavoura e dispunha desembaraçadamente dos produtos das colheitas.  

Ela só pensou no descanso quando foi atingindo a velhice. Numa de suas cartas a seu filho, General OSORIO, dizia uma vez: “já vou caminhando para os setenta anos e ainda tenho tantos trabalhos, como quando principiei a vida, ou ainda mais”.  

Ao lado do estremecido esposo, teve Dona Anna Joaquina o seu túmulo em Caçapava.  

Agora, uma explicação se faz necessária.   

A pedido do próprio Manoel Luis Silva Borges, não lhe herdaram os filhos o sobrenome, porém sim o de Osorio, querendo, desta forma, perpetuá-lo por consideração à sua esposa e ao seu sogro, o Tenente Thomaz José Luis Osorio, que o protegera na desgraça. Eis porque se chamava o Marquês do Herval Manoel Luis Osorio.  

A largos traços, esta foi a vida de um brasileiro que, de simples soldado, galgou os postos do Exército até Tenente-Coronel, em rudes pelejas em prol da independência, da defesa da nova pátria sul-americana que surgia e da manutenção do governo do Império do Brasil, que fez de nossa pátria, já àquelas épocas, uma grande nação americana. Na base da dedicação e do amor, constituiu uma família exemplar cujos numerosos descendentes, homens e mulheres, dentre os quais sobressaiu Manoel Luis Osorio que atingiu no Exército o alto posto de Marechal do Exército Graduado, foi Senador do Império e Ministro da Guerra cujo nome brilha nas páginas da história do Brasil. A farda de Osorio, na afirmação de Ruy Barbosa, é cívica, não o discrimina do povo, confunde-o com ele, de onde surgiu — o General do Povo; o Marechal gaúcho, temerário; o grande vulto do herói glorioso.  

Apelidado OSORIO, o "Legendário”, digno foi de seu pai e, na constituição de nova família, dizer se pode que foi, em grande parte, continuador da obra do casal Manoel Luis da Silva Borges e Anna Joaquina Luiza Osorio, eminentes brasileiros a quem o nosso povo, o Brasil enfim, muitíssimo deve.

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