A incidência de abdômen agudo eqüino no 3° Regimento de Cavalaria de Guarda
 

INTRODUÇÃO

          A Síndrome Cólica ou abdômen agudo é um quadro de dor abdominal, que pode envolver qualquer órgão da cavidade abdominal e poderá evoluir comprometendo progressivamente o estado cardiovascular do paciente. É uma das maiores causas de óbito na espécie eqüina (Thomassian, 1990). O cavalo apresenta peculiaridades anatômicas e fisiológicas do aparelho digestório, apropriadas para sua vida em seu habitat natural. A sua domesticação, o seu confinamento e o seu uso na rotina do homem provocaram uma série de alterações, especialmente no comportamento alimentar. Goloubeff (1993) relacionou as características da anatomia digestiva do cavalo, como a incapacidade de vomitar, um mesentério muito desenvolvido que predispõe o longo intestino delgado às ectopias e vôlvulos, o grande diâmetro do cólon maior e suas curvaturas que são favoráveis às impactações e como agravante encontra-se preso apenas a raiz mesentérica anterior com plena mobilidade que permite as ectopias. A mesma autora salientou que são importantes as alterações do comportamento alimentar em cavalos estabulados com restrita oferta de fibra. Eqüinos selvagens pastam 60% do tempo e os estabulados comem somente 15% do tempo, isto demonstra um grave desvio na fisiologia no eqüino estabulado. Os fatores estressantes como a permanência em condições de explicita privação de liberdade, produzem desconforto, sofrimento e dor. Este estado emocional desprazeroso se reflete, de maneira variável, nas funções fisiológicas do trato gastro-intestinal. Doenças tem sido expressas por estados neuróticos como autoagressividade e violência no momento da alimentação, distribuída geralmente em proporção e em horários determinados. Segundo Hillyer et al. (2002) a causa mais comum de cólica poderia ser descrita por uma só palavra: domesticação. A perversão alimentar como o coprofagismo, a hipotonia intestinal, a impossibilidade de caminhar pela restição do espaço físico, a depressão psico-reativa, são fatores que associados com a pobreza qualitativa do alimento, insatisfatório às necessidades diárias, comprometem a digestão do eqüino. 
          Existem vários fatores de risco que contribuem para o desenvolvimento da doença. Austin (2001) e Hillyer et al. (2002) citaram a diminuição ou variações no nível de atividade física, alterações súbitas na dieta, alterações nas condições de estabulação, uma alimentação rica em concentrados, um volumoso ou ração de má qualidade, consumo excessivamente rápido da ração, privação de água e até mesmo o transporte em viagens. O eqüino é mais exigente e sensível às alterações de manejo alimentar e ambiental.
          O quadro de abdômen agudo pode ser causado por diferentes patologias, envolvendo as diferentes porções do trato gastrointestinal. Os distúrbios podem ser gástricos ou intestinais, obstrutivos ou não, com ou sem estrangulamento vascular. O prognóstico da doença dependerá de vários fatores, como a região afetada, o grau de comprometimento do órgão e também do tempo para o início do tratamento (White II, 1987).



MATERIAL E MÉTODOS

          Foram revisados todos os registros de atendimentos realizados pela Seção Veterinária do 3° RCG, Porto Alegre-RS, de casos de abdômen agudo no período de janeiro de 2002 à dezembro de 2004. Foi contado o número total de casos de abdômen agudo e classificados quanto ao tipo de distúrbio gastrointestinal. 
          O Regimento possui uma população de 230 eqüinos , entre machos e fêmeas, adultos e em atividade diária de equitação, com alimentação a base de ração comercial e alfafa. 



RESULTADOS

A Tabela 1 mostra os resultados encontrados ao avaliar o número total de casos.

TABELA 1. Casos de cólicas e tratamentos cirúrgicos.

 

N° de Casos

ABDÔMEN AGUDO 91
CIRURGIAS 19
 
 
A Tabela 2 mostra os resultados relativos aos diferentes tipos de cólicas ocorridos no período de 2002 a 2004.
 

TABELA 2. Tipos de cólicas e número de casos.

Tipo de Cólica N° de Casos
Enterólito 07
Impactação 01
Vôlvulo do Intestino delgado 04
Vôlvulo do Intestino Grosso 04
Deslocamentos do IG 02
Encarceramento do ID 03
Sablose 02
Distensão gástrica 57
Espasmódica 04
Tromboembólica 01
Duodeno jejunite proximal 01
Sem diagnóstico 05
 

DISCUSSÃO

Pouco é conhecido sobre a incidência da cólica e as chances de sobrevida nestes casos (White II, 1986). O autor ressaltou que determinar a incidência da doença, dos fatores de risco associados ou a etiologia específica é difícil na população eqüina, pois são inúmeros os fatores envolvidos. O objetivo deste estudo foi relatar o número de casos de abdômen agudo no 3° RCG no período de janeiro de 2002 a dezembro de 2004, verificando a incidência das diferentes tipos de cólicas. 
Após a análise dos dados pode-se concluir que a maioria dos casos de abdome agudo atendidos no 3o RCG foram causados por distensão gástrica e tiveram resolução com tratamento medicamentoso e sondagem nasogástrica para esvaziamento do estômago. Verificou-se que as distensões gástricas não ocorreram por sobrecarga alimentar, pois o volume fornecido de alimento a cada refeição é constante, ou seja, 2,5 Kg de ração duas vezes ao dia e 1,5 Kg de alfafa também duas vezes ao dia, sendo ao todo quatro refeições diárias. A ocorrência deste distúrbio está relacionada provavelmente a condições de manejo alimentar e ao confinamento. Conforme citaram Goloubeff (1993), Carter (1987) e Hillyer et al. (2002), a qualidade da ração, a alimentação em refeições intercaladas, a baixa ingestão de volumoso associados a fatores com o stress e as alterações de comportamento provocadas pelo confinamento podem influenciar na fisiologia e funcionamento do aparelho digestivo do eqüino.
A cólica por distensão é um tipo não cirúrgico e que responde a maioria dos tratamentos clínicos. Incluem-se nesta categoria as cólicas espasmódicas, distensões gasosas, impactação com obstrução parciais. Este tipo parece ser o mais comum na prática clínica de eqüinos (Messer & Beeman, 1987). Os autores afirmaram que as alterações na motilidade tem um papel significativo no desenvolvimento da distensão e que os distúrbios neuroendócrinos influenciam no peristaltismo. Um peristaltismo reduzido secundário ao espasmo ou ao íleo adinâmico, rapidamente provoca distensão do estômago ou do intestino com gás ou fluídos, levando ao aumento da tensão intramural e dor. A distensão primária do estômago geralmente é causada por sobrecarga de grãos ou por gases produzidos por alimentos fermentáveis, e ocorre em aproximadamente 10% dos casos (Carter, 1987).
Segundo Foreman (2000) a cólica espasmódica é provavelmente a causa mais comum de dor abdominal em eqüinos. Espasmos ou contrações descontroladas resultam em dor. Alguns mecanismos são propostos, como os alimentos com excessiva produção de gás, fibra insuficiente, e a subseqüente distensão da parede intestinal. Também as influências ambientais como a excitabilidade natural do cavalo e excitação ou fadiga pelo exercício. O autor alertou que o aumento do peristaltismo pode resultar em deslocamentos de alças intestinais. Foram registrados 04 casos de cólica espasmódica. Considerando a literatura e os fatores envolvidos na fisiopatologia da cólica por distensão é possível que tenha sido subestimada a ocorrência de cólica espasmódica. Os eqüinos em estudo são submetidos a todos os fatores que potencialmente podem provocar este tipo de cólica, que pode evoluir levando a distensão do trato gastointestinal. 
Distopias ou deslocamentos de alças para fora da sua posição dentro da cavidade abdominal podem causar obstruções intestinais. São classificados como estrangulantes e não estrangulantes. O vôlvulo é uma torção do intestino no seu eixo mesentérico e a torção é a rotação da alça ao longo de seu próprio eixo, casos de obstrução estrangulante com grave comprometimento vascular. O volvulo é mais comum no intestino delgado e a torção no intestino grosso (Thomson, 1990; Goloubeff, 1993). 
Neste estudo foi verificado uma ocorrência de 4,4% (04 casos) de vôlvulos do intestino delgado, representando 19% de todos os casos cirúrgicos. As obstruções do intestino delgado, segundo Mair (2002) são importantes causas de cólica cirúrgica em eqüinos e relatou um estudo em que encontrou 40% dos casos cirúrgicos provocados por este tipo de patologia . White (1987) registrou 4,3% de casos de vôlvulo de intestino delgado ao avaliar 2385 casos de cólica. Robertson (1987) afirmou que cavalos com mais de 6 anos de idade são predispostos a herniação do forame epiplóico devido a atrofia do lobo caudal do fígado, favorecendo o encarceramento de alças do intestino delgado neste orifício. Neste estudo foram operados 03 eqüinos com encarceramentos de alças do intestino delgado. Os três com mais de 06 anos de idade. 
O intestino do cavalo é anatomicamente predisposto aos deslocamentos (Hackett, 1987; Snyder & Spier, 1990). Hackett (1987), citou estudos que revelaram entre 11% e 17% dos casos cirúrgicos eram torções do cólon maior. Hackett (1983) afirmou que o deslocamento não estrangulante do cólon ascendente é uma das maiores causas de obstrução do intestino grosso e Jones et al. (2000) corroboraram esta afirmação explicando sobre a mobilidade do cólon ascendente e como o acúmulo de gás, líquido ou ingesta podem fazer que o cólon migre de posição. Goloubeff (1993) sugeriu que os padrões anormais de motilidade contribuam para o deslocamento colônico e a correção cirúrgica é o meio mais eficaz de tratamento. White II (1987) em um estudo relatou que 10,6% dos casos foram provocados por torções ou deslocamentos do cólon maior. Neste trabalho foi constatado 6,6% dos casos foram de torção ou deslocamento do cólon maior, se aproximando dos registros encontrados na literatura. As figuras 1 e 2 demonstram o acúmulo de líquido e gás nas alças intestinais.

 

Figura 1 Figura 2

As impactações e os enterólitos também são responsáveis por obstruções intestinais. Assim como nos deslocamentos os mecanismos de como se desenvolvem estas patologias não são bem entendidos (White II, 1986). Segundo Jones et al. (2000) fatores como o tipo de alimentação, forragens grosseiras, exercício limitado, desidratação e privação de água podem predispor a desidratação do bolo fecal e levar a impactação. White II (1987) registrou a incidência de 7,3% de casos de impactação do cólon maior. Nos eqüinos que vivem em regiões com solo arenoso a areia ingerida ao pastar ou ao beber água, mesmo em pequena quantidade pode levar a obstrução, também chamada de sablose. O autor considerou que o tratamento clínico pode ser efetivo, mas se a impactação persistir por 48 horas ou houver evidência de lesão no intestino e deterioração do estado circulatório é indicada a cirurgia. Nos três casos de impactação registrados, somente em um, o tratamento clínico foi com sucesso. Em dois casos a origem da impactação foi areia e os animais habitavam região litorânea, no outro caso a provável causa foi a privação de água.
O enterólito é um cálculo intestinal e é uma causa significante de obstrução do intestino grosso, são compostos de fosfato de magnésio-amônio (estruvita) e geralmente tem um pequeno corpo estranho que dá origem ao depósito dos minerais (Boles & Herthel, 1987; Thomson, 1990). Segundo Bray (1995) a maioria dos eqüinos com enterólitos tem entre 5 e 10 anos de idade. O autor considera que a patogenia é incerta mas afirma que o consumo elevado de magnésio e proteína parece estar envolvido, componentes presentes em quantidade no feno de alfafa. O autor salientou que apesar da alfafa poder estar envolvida na formação do concremento, a maioria dos cavalos que sempre comeram feno de alfafa não desenvolvem o enterólito. No presente estudo foi verificado que 36,8% dos casos cirúrgicos foram causados por enterólitos e que com o tratamento cirúrgico precoce demonstraram um bom prognóstico. Todos os animais recebiam feno de alfafa na dieta e tinham mais de seis anos de idade. Em todos os enterólitos havia algum pequeno núcleo que fora ingerido oralmente, como arames, pedriscos, cordões, plásticos e até penas de pássaros. 

 

A Figura 3 mostra um enterólito retirado cirurgicamente do cólon maior.

 

O quadro de abdome agudo ainda pode ser provocado por larvas de parasitas como o S. vulgaris que provoca a formação de trombos nas artérias (Drudge, 1979) e ainda por uma inflamação do intestino delgado chamada de duodeno-jejunite proximal ou enterite anterior, patologia de etiologia não identificada, mas com envolvimento de agente infeccioso e geralmente predisposta após dietas ricas em concentrados ou alterações bruscas na dieta (Goloubeff, 1993). Somente um caso parece ter sido provocado por trombose e embolia. É provável que o sistema de profilaxia adotado, com vermifugações sistemáticas a cada três meses, influencie neste resultado. Também parece influenciar na baixa ocorrência da enterite anterior, isto é, somente um caso em todo o período avaliado, o fato de não haver mudança na dieta dos animais.
Em 5,5% dos casos não houve um diagnóstico definitivo e foram consideradas de origem desconhecida. Segundo White II (1987) neste grupo incluem-se cólicas leves ou casos onde não foi possível identificar a origem da dor e citou 25% de casos de origem desconhecida quando analisou um estudo de 2385 casos. 
Do total de 91 casos foi necessário o tratamento cirúrgico em 19 casos, correspondendo a 20% dos casos de cólica ocorridos no período de dois anos. Austin (2001) relatou uma taxa de 3%, Hackett (1987) descreveu estudos com 17% e 11% de casos cirúrgicos. Conforme salientou White II (1986) esta proporção pode variar consideravelmente devido a inúmeros fatores. As figuras 4 e 5 demonstram o preparo para a cirurgia e uma enterotomia para esvaziamento da alça intestinal.

 

Figura 4 Figura 5

 

CONCLUSÃO

A ocorrência de abdômen agudo no 3° RCG provavelmente está relacionada com as condições de confinamento e suas alterações na fisiologia digestiva do cavalo e também com o manejo alimentar a que são submetidos. A maioria dos casos são de origem gástrica e não necessitaram de cirurgia para tratamento. Ao estudarmos as potenciais causas da cólica por distensão podemos afirmar que há uma estreita relação entre a elevada ocorrência registrada deste tipo de cólica com uma série de fatores associados ao confinamento e a rotina dos cavalos. Novos trabalhos com o objetivo de identificar e relacionar fatores que possam estar influenciando no comportamento e digestão dos animais poderão ser realizados e possibilitar adequações em benefício do manejo alimentar.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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AUTORES

Pulz, Renato S. - Médico Veterinário - 1° Tenente Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda, MSc, Professor da Faculdade de Medicina Veterinária da Ulbra- disciplina de Cirurgia. 

Petrucci, Bianca do P. L. - Médica Veterinária - Aluna de Mestrado da UFRGS.

Pezzi, Alexandre F. - Médico Veterinário - 1° Tenente Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda.

da Silva, Clério - Médico Veterinário - 1° Tenente Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda.


Endereço para correspondência : Faculdade de Medicina Veterinária da Ulbra Av. Miguel tostes, 101, canoas, RS CEP 92420-280 e 3° Regimento de Cavalaria de Guarda. Av. Salvador França, 201. Porto alegre - RS.