A hemorragia pulmonar induzida pelo exercício (HPIE) é
caracterizada pela presença de sangue nas vias aéreas
proveniente dos capilares alveolares após o exercício,
geralmente associada a competições como a corrida, mas
também pode ocorrer em cavalos usados em outras
atividades como competições de salto, rodeio e pólo (PASCOE, 1997). Conforme afirmou Pascoe (1991) a patologia
é importante devido a sua elevada incidência em eqüinos
de esporte. O autor registrou em um estudo uma ocorrência
de 42 a 85% em eqüinos submetidos a exercícios de
velocidade. Ainsworth & Biller (2000) registraram a
prevalência da HPIE de 44 a 75% em cavalos de corrida, de
40% em cavalos de eventos de 3 dias e 11% nos de pólo.
Suma & Prado (2002) observaram a ocorrência de 65,7%
em cavalos de corrida. Moran
et al. (2003) ao avaliarem eqüinos jogando polo
verificaram que 46% dos examinados tinham algum grau de
sangramento pulmonar.
Evidências sugerem que o sangramento resulta do
rompimento dos capilares pulmonares como conseqüência da
elevada pressão vascular transmural. Um reflexo do
elevado débito cardíaco relacionado com o intenso exercício
físico (PASCOE, 1997). Segundo Erickson (2001) é
resultado de hipertensão vascular em combinação com uma
grande pressão negativa intra-pleural, o que geraria um
aumento na pressão capilar pulmonar e conseqüente
hemorragia. Schroter
et al. (1998) também consideraram causas anatômicas
e mecânicas.
Os pulmões de cavalos que
apresentaram episódio repetidos de HPIE se caracterizam
por várias alterações morfológicas, como a fibrose
intersticial e a neovascularização arterial brônquica.
Estudos do tecido pulmonar de eqüinos mediante
microscopia eletrônica, realizados imediatamente após o
exercício extremo, demonstraram ruptura dos capilares
pulmonares e presença de eritrócitos no intersticio
pulmonar e nos alvéolos (DERKSEN, 2001).
A
presença de sangramento nasal é baixa, segundo Clarke (1992)
aproximadamente 5% dos animais afetados terão epistaxe
evidente durante ou após o exercício. Sweeney (1991)
registrou o aparecimento da epistaxe somente em 1 a 3% dos
casos. O autor salientou que o sangramento nasal pode
ocorrer até 24 horas após o exercício. Devido a existência
de outras causas de epistaxe o exame endoscópico das vias
aéreas garante o diagnóstico definitivo. O exame é
melhor realizado entre 30 a 90 minutos após o exercicio (SWEENEY &
REILLY, 2001).
Também podem ser sinais clínicos a deglutição,
a tosse e o engasgamento. A morte é rara, mas pode
ocorrer (KNOTTENBELT & PASCOE, 1998). Segundo Cook
(2002) a morte ocorre por edema pulmonar e asfixia.
Medidas terapêuticas e de manejo são utilizadas
como esforço de reduzir ou prevenir a ocorrência da HPIE, mas a eficiência destas medidas ainda permanece
controversa. Segundo Moran & Araya (2003) o uso da
furosemida administrada intravenosa de uma a quatro horas
antes do exercício parece atenuar a pressão capilar
pulmonar, beneficiando alguns eqüinos sangradores.
Conforme afirmou Clarke (1992) parece existir uma estreita
relação entre as doenças pulmonares alérgicas e o
desenvolvimento desta patologia. O autor considera que
medidas como a melhor ventilação das baias e o uso de
broncodilatadores podem ajudar, além de técnicas de
treinamento adequado e melhor condicionamento físico, que
melhorem a eficiência circulatória.
MATERIAL
E MÉTODOS
Foram examinados através de endoscopia 35 eqüinos,
adultos, mestiços, com idade entre 8 a 12 anos,
utilizados para prática de pólo no 3°
Regimento de Cavalaria de Guarda, em Porto Alegre, RS.
Nenhum dos animais apresentava epistaxe antes do exame.
Todos os animais foram examinados em até 30 minutos após
o jogo com um endoscópio flexível de 1,6 metros de
comprimento (foto 2). Os animais foram contidos com o uso
do cachimbo e quando necessário foi administrado xilazina
0,5 mg/Kg, via intravenosa. Os animais que apresentaram
HPIE foram classificados conforme ao grau de hemorragia e
volume de sangue e sua distribuição ao longo das vias aéreas,
conforme Beech (1991) o grau I apresenta pontos ou estrias
de sangue no terço posterior da traquéia, o grau II
apresenta filetes de sangue em 2/3 da traquéia, o grau
III tem sangue distribuído uniformemente por toda extensão
da traquéia, o grau IV tem sangue em abundância por toda
extensão da traquéia, podendo aparecer na laringe e
faringe e o grau V apresenta sangue em abundância e
epistaxe.
O objetivo deste estudo foi verificar a ocorrência
da HPIE em eqüinos de pólo, pois existe pouca literatura
comentando a doença nesta modalidade esportiva. Voynick
& Sweeney
(1986) registraram uma incidência de 11% em eqüinos de pólo,
já Moran et al. (2003) verificaram uma incidência de
46%, e relacionaram esta maior ocorrência com a falta de
um exame prévio dos eqüinos. Os autores concluíram que
sem o diagnóstico nenhum eqüino foi beneficiado por
tratamento prévio. No presente estudo, dos 35 cavalos
examinados, foram diagnosticados 09 com HPIE,
representando 25,7 % dos animais examinados. Uma incidência
intermediária ao compararmos com os 11% (VOYNICK &
SWEENEY, 1986)
e os 46% (MORAN et al., 2003). Segundo Derksen
(2001) a ocorrência da HPIE pode variar dependendo do nível
de exigência do exercício. Eqüinos que sangram em um
dia podem não sangrar em outro. Conforme constatou Pascoe
(1991) o sangramento ocorre em cavalos que alcançam
velocidades maiores que 840 m/minuto. Acreditamos que a
maior incidência registrada neste estudo esteja
relacionada ao nível de condicionamento físico e
cardiovascular dos animais. Além disto, esta
modalidade esportiva apresenta particularidades que podem
influenciar nos resultados encontrados. Diferente das
corridas onde já se espera um determinado esforço para
uma determinada distância, no pólo o nível de exigência
pode variar conforme a qualidade técnica da partida,
fatores como o cavaleiro e o time adversário podem
influenciar.
É
importante ressaltar que nenhum dos eqüinos apresentava
epistaxe ao exame. Conforme afirmaram Clarke (1992) e
Sweeney (1991) este
fenômeno ocorre em menos de 5 % dos animais com HPIE.
Assim, podemos concluir que muitos cavalos com HPIE poderão
ser submetidos ao exercício sem tratamento e manejo
apropriado por não ter um diagnóstico definitivo,
portanto o uso do exame endoscópico como meio de diagnóstico
definitivo é fundamental, conforme salientara Ainsworth
& Biller (2000).
Todos os eqüinos afetados apresentavam mais de 12
anos de idade. Segundo Derksen (2001) os eqüinos mais
velhos são mais suscetíveis, e isto pode estar
relacionado ao dano progressivo dos repetidos episódios
de hemorragia e o desenvolvimento de enfermidades das vias
aéreas superiores. Nenhum dos animais examinados
apresentava sinais de doença respiratória ou histórico
de doença respiratória alérgica.
CONCLUSÃO
No presente estudo concluímos que os eqüinos utilizados
na prática de pólo podem ser acometidos pela hemorragia
pulmonar induzida pelo exercício. O sangramento nasal
raramente ocorre, portanto ao avaliarmos as possíveis
causas de má performance, o exame endoscópico após o
exercício é fundamental. Os eqüinos diagnosticados
poderão se beneficiar com medidas terapêuticas e de
manejo.
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