Hemorragia Pulmonar Indizuda pelo Exercício em Cavalos de Polo
 

INTRODUÇÃO

             Os eqüinos submetidos às diversas práticas desportivas com intenso esforço físico podem ser acometidos por um sangramento pulmonar. Segundo COLAHAN et al. (1999) esta patologia já é descrita há mais de 300 anos e se caracteriza pelo sangramento da vascularização pulmonar em conseqüência de mudanças cardiopulmonares que ocorrem durante o exercício. Apesar de descoberta a muito tempo ainda não se estabeleceu a origem da enfermidade e nem o tratamento adequado. Segundo Reed & Bayly (2000) já foram propostos vários mecanismos, os autores afirmaram que a patologia é multifatorial e que não existe um fator etiológico único. West & Costello (1995) afirmaram que não deveria se considerar a HPIE como uma patologia propriamente dita e sim uma condição comum em cavalos de esporte. Hinchcliff (2000) considerou que este sangramento após o exercício é um fenômeno que resulta do esforço extremo, já que o eqüino é preparado geneticamente para um esforço sub-máximo. O pólo é uma modalidade de esforço físico intenso e os animais desenvolvem alta velocidade (foto 1).

 

Foto1. Partida de Polo
 
 

          A hemorragia pulmonar induzida pelo exercício (HPIE) é caracterizada pela presença de sangue nas vias aéreas proveniente dos capilares alveolares após o exercício, geralmente associada a competições como a corrida, mas também pode ocorrer em cavalos usados em outras atividades como competições de salto, rodeio e pólo (PASCOE, 1997). Conforme afirmou Pascoe (1991) a patologia é importante devido a sua elevada incidência em eqüinos de esporte. O autor registrou em um estudo uma ocorrência de 42 a 85% em eqüinos submetidos a exercícios de velocidade. Ainsworth & Biller (2000) registraram a prevalência da HPIE de 44 a 75% em cavalos de corrida, de 40% em cavalos de eventos de 3 dias e 11% nos de pólo. Suma & Prado (2002) observaram a ocorrência de 65,7% em cavalos de corrida. Moran et al. (2003) ao avaliarem eqüinos jogando polo verificaram que 46% dos examinados tinham algum grau de sangramento pulmonar.

          Evidências sugerem que o sangramento resulta do rompimento dos capilares pulmonares como conseqüência da elevada pressão vascular transmural. Um reflexo do elevado débito cardíaco relacionado com o intenso exercício físico (PASCOE, 1997). Segundo Erickson (2001) é resultado de hipertensão vascular em combinação com uma grande pressão negativa intra-pleural, o que geraria um aumento na pressão capilar pulmonar e conseqüente hemorragia. Schroter et al. (1998) também consideraram causas anatômicas e mecânicas.

   Os pulmões de cavalos que apresentaram episódio repetidos de HPIE se caracterizam por várias alterações morfológicas, como a fibrose intersticial e a neovascularização arterial brônquica.  Estudos do tecido pulmonar de eqüinos mediante microscopia eletrônica, realizados imediatamente após o exercício extremo, demonstraram ruptura dos capilares pulmonares e presença de eritrócitos no intersticio pulmonar e nos alvéolos (DERKSEN, 2001).

           A  presença de  sangramento nasal é baixa, segundo Clarke (1992) aproximadamente 5% dos animais afetados terão epistaxe evidente durante ou após o exercício. Sweeney (1991) registrou o aparecimento da epistaxe somente em 1 a 3% dos casos. O autor salientou que o sangramento nasal pode ocorrer até 24 horas após o exercício. Devido a existência de outras causas de epistaxe o exame endoscópico das vias aéreas garante o diagnóstico definitivo. O exame é melhor realizado entre 30 a 90 minutos após o exercicio (SWEENEY & REILLY, 2001).  Também podem ser sinais clínicos a deglutição, a tosse e o engasgamento. A morte é rara, mas pode ocorrer (KNOTTENBELT & PASCOE, 1998). Segundo Cook (2002) a morte ocorre por edema pulmonar e asfixia.

           Medidas terapêuticas e de manejo são utilizadas como esforço de reduzir ou prevenir a ocorrência da HPIE, mas a eficiência destas medidas ainda permanece controversa. Segundo Moran & Araya (2003) o uso da furosemida administrada intravenosa de uma a quatro horas antes do exercício parece atenuar a pressão capilar pulmonar, beneficiando alguns eqüinos sangradores. Conforme afirmou Clarke (1992) parece existir uma estreita relação entre as doenças pulmonares alérgicas e o desenvolvimento desta patologia. O autor considera que medidas como a melhor ventilação das baias e o uso de broncodilatadores podem ajudar, além de técnicas de treinamento adequado e melhor condicionamento físico, que melhorem a eficiência circulatória.

 

MATERIAL E MÉTODOS

          Foram examinados através de endoscopia 35 eqüinos, adultos, mestiços, com idade entre 8 a 12 anos, utilizados para prática de pólo no 3° Regimento de Cavalaria de Guarda, em Porto Alegre, RS. Nenhum dos animais apresentava epistaxe antes do exame. Todos os animais foram examinados em até 30 minutos após o jogo com um endoscópio flexível de 1,6 metros de comprimento (foto 2). Os animais foram contidos com o uso do cachimbo e quando necessário foi administrado xilazina 0,5 mg/Kg, via intravenosa. Os animais que apresentaram HPIE foram classificados conforme ao grau de hemorragia e volume de sangue e sua distribuição ao longo das vias aéreas, conforme Beech (1991) o grau I apresenta pontos ou estrias de sangue no terço posterior da traquéia, o grau II apresenta filetes de sangue em 2/3 da traquéia, o grau III tem sangue distribuído uniformemente por toda extensão da traquéia, o grau IV tem sangue em abundância por toda extensão da traquéia, podendo aparecer na laringe e faringe e o grau V apresenta sangue em abundância e epistaxe.

 

Foto2. Endoscopia
 

RESULTADOS

          Na tabela 1 verifica-se os resultados encontrados.

Tabela 1. Incidência de hemorragia pulmonar induzida por exercício (HPIE) em cavalos de pólo.

 

 
Eqüinos examinados 35
Eqüinos com HPIE 09 (25,7%)
Eqüinos não sangradores 26 (74,3%)
 
 
           Na tabela 2 verifica-se os resultados verificados quanto ao grau de sangramento.
 

Tabela 2. Classificação quanto ao grau de sangramento dos 09 eqüinos com HPIE.

GRAU I 01
GRAU II 0
GRAU III 01
GRAU IV 07
GRAU V 0
 

DISCUSSÃO

           A hemorragia pulmonar induzida pelo exercício é uma patologia com elevada incidência em cavalos de esporte. No jogo de pólo o cavalo também pode ser exigido desenvolvendo galopes de alta velocidade (foto 3), portanto estes animais representam um grupo de risco. A HPIE é uma das maiores causas de queda de performace no cavalo atleta e a influência no rendimento é proporcional ao grau de sangramento (PASCOE, 2001; DERKSEN, 2001).

 

foto 3. Partida de Polo
 

       O objetivo deste estudo foi verificar a ocorrência da HPIE em eqüinos de pólo, pois existe pouca literatura comentando a doença nesta modalidade esportiva. Voynick &  Sweeney (1986) registraram uma incidência de 11% em eqüinos de pólo, já Moran et al. (2003) verificaram uma incidência de 46%, e relacionaram esta maior ocorrência com a falta de um exame prévio dos eqüinos. Os autores concluíram que sem o diagnóstico nenhum eqüino foi beneficiado por tratamento prévio. No presente estudo, dos 35 cavalos examinados, foram diagnosticados 09 com HPIE, representando 25,7 % dos animais examinados. Uma incidência intermediária ao compararmos com os 11% (VOYNICK &  SWEENEY, 1986)  e os 46% (MORAN et al., 2003). Segundo Derksen (2001) a ocorrência da HPIE pode variar dependendo do nível de exigência do exercício. Eqüinos que sangram em um dia podem não sangrar em outro. Conforme constatou Pascoe (1991) o sangramento ocorre em cavalos que alcançam velocidades maiores que 840 m/minuto. Acreditamos que a maior incidência registrada neste estudo esteja relacionada ao nível de condicionamento físico e  cardiovascular dos animais. Além disto, esta modalidade esportiva apresenta particularidades que podem influenciar nos resultados encontrados. Diferente das corridas onde já se espera um determinado esforço para uma determinada distância, no pólo o nível de exigência pode variar conforme a qualidade técnica da partida, fatores como o cavaleiro e o time adversário podem influenciar.

É importante ressaltar que nenhum dos eqüinos apresentava epistaxe ao exame. Conforme afirmaram Clarke (1992) e Sweeney (1991)  este fenômeno ocorre em menos de 5 % dos animais com HPIE. Assim, podemos concluir que muitos cavalos com HPIE poderão ser submetidos ao exercício sem tratamento e manejo apropriado por não ter um diagnóstico definitivo, portanto o uso do exame endoscópico como meio de diagnóstico definitivo é fundamental, conforme salientara Ainsworth & Biller (2000).

         Todos os eqüinos afetados apresentavam mais de 12 anos de idade. Segundo Derksen (2001) os eqüinos mais velhos são mais suscetíveis, e isto pode estar relacionado ao dano progressivo dos repetidos episódios de hemorragia e o desenvolvimento de enfermidades das vias aéreas superiores. Nenhum dos animais examinados apresentava sinais de doença respiratória ou histórico de doença respiratória alérgica.

 


CONCLUSÃO

        No presente estudo concluímos que os eqüinos utilizados na prática de pólo podem ser acometidos pela hemorragia pulmonar induzida pelo exercício. O sangramento nasal raramente ocorre, portanto ao avaliarmos as possíveis causas de má performance, o exame endoscópico após o exercício é fundamental. Os eqüinos diagnosticados poderão se beneficiar com medidas terapêuticas e de manejo.

 

BIBLIOGRAFIA

AINSWORTH, D. M. & BILLER, D. S. Sistema respiratório. In: REED, S. M. & BAYLY, W. M.  Medicina Interna Eqüina. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 2000, p. 218-249.  

BEECH, J. Exercise induced pulmonary haemorrhage. In: Equine respiratory disorders. Philadelphia: Lea & Febiger, 1991, p.237-250.

CLARKE, F. A. Exercise induced pulmonary haemorrhage. In: Robinson, N. E. Current Therapy in Equine Medicine 3. Philadelphia: WB Saunders, 1992, p. 335-336.  

CLARKE, F. A. Review of  exercise induced pulmonary haemorrhage and its possible relationship with mechanical stress. Equine Vet J., v.17, p. 166, 1985.

COLAHAN, P. T. Exercise induced pulmonary haemorrhage. In: Equine Medicine and Surgery. 5ed . St Louis: Mosby, 1999, p. 546-552.

HODSON, D. R. & ROSE, R. J. Respiratpry sistem. In: Athletic Horse. Philadelphia: WB Saunders, 1994, p. 113-120.

KNOTTENBELT. D. C. & PASCOE, J. R. Distúrbios do trato respiratório. In: Afecções e Distúrbios do Cavalo. São Paulo: Manole, 1998, p. 91-156.

MORAN, G. & ARAYA, O. Hemorragia pulmonar inducida por el ejercicio en el caballo: una revision. Arch. Med. Vet., v.35, n. 2, p. 127-138, 2003.  

PACOE, J. R. Exercise induced pulmonary haemorrhage. In: Current Therapy in Equine Medicine 4.  Philadelphia: WB Saunders, 1997, p. 441-443.  

SWEENEY, C. R. Exercise induced pulmonary haemorrhage. In: Robinson, N. E. Current Therapy in Equine Medicine 2. Philadelphia: WB Saunders, 1987, p. 603-605.

SWEENEY, C. R. & REILLY, L. K. Sistema Respiratório. In : Segredos em Medicina de Eqüinos. Porto Alegre: Artmed, 2001, p. 136-151. 

SUMA, R. P. et al. Hemorragia pulmonar induzida pelo exercício em cavalos da raça puro sangue inglês. R. Bras. Ci. Vet., Supl., v.9, n.1, p. 104-105, 2002. 

 VOYNICK, B. R. &  SWEENEY, C. R. Exercise induced pulmonary haemorrhage in polo and racing horses. JAVMA,   v.188, p. 301, 1986.

 

EQUIPE

PULZ, Renato S. Médico Veterinário, MSc, 1º Ten Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda, Professor da    Faculdade de Medicina Veterinária da Ulbra – disciplina de cirurgia. 

PEZZI, Alexandre F. Médico Veterinário, 1° Ten Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda.

 SILVA, Clério. Médico Veterinário, 1° Ten Veterinário do 3° Regimento de Cavalaria de Guarda.  

 PETRUCCI, Bianca. Médica Veterinária. Aluna de Mestrado da UFRGS.