 |
Tratamento
Cirúrgico para Obstrução Intestinal em Eqüino
causada por um Enterólito de mais de 4Kg
|
INTRODUÇÃO
Os enterólitos são cálculos intestinais encontrados no intestino grosso dos eqüinos e também de outros herbívoros, é uma causa significante de obstrução do intestino grosso e de dor abdominal (BOLES e HERTEL, 1987). Eles podem permanecer longos períodos no cólon maior sem causar sinais clínicos de obstrução ou mesmo serem expelidos nas fezes (BLUE e WITTKOPP, 1981).
A composição do cálculo consiste principalmente em sais de fósforo e magnésio precipitados de forma concêntrica em um pequeno núcleo (BLUE, 1979). O autor citou pequenos pedaços de plástico, borracha, esponja, arame e pedriscos como exemplos de núcleos e verificou que os enterólitos apresentaram tamanhos entre 5 a 15 centímetros de diâmetro, pesando de 200 gramas a 3,6 quilos. A velocidade de formação é desconhecida, Lloyd et al. (1987) afirmaram que um enterólito com tamanho suficiente para obstruir o intestino deve levar aproximadamente dois anos para se formar.
Bray (1995) afirmou que a patogenia é incerta, mas que o elevado consumo de proteína e magnésio parece estar envolvido. Estes componentes estão presentes em grande quantidade na alfafa. O autor, porém, salientou que apesar da possibilidade do envolvimento da alfafa na formação do concremento a maioria dos cavalos que sempre comeu feno de alfafa não desenvolveu enterólitos. Hassel et al. (1999) também sugeriram como fator predisponente o farelo de trigo devido aos altos níveis de fósforo e magnésio. Os autores também consideraram a capacidade da alfafa em alcalinizar o pH colônico, entretanto afirmaram que a alfafa sozinha não pode ser responsabilizada pela formação do enterólito. Jones et al. (2000) ao observarem este fato concluíram que a patogenia é multifatorial.
Alguns autores relataram uma maior incidência de enterólitos em determinadas áreas geográficas (BLUE, 1979; LLOYD et al., 1987). Hassel et al. (1999) afirmaram que as causas geográficas são especulativas e as razões para isto são obscuras, mas indicaram vários fatores concorrentes como a maior exposição a núcleos, a influência do solo, as características da ração, do pasto, do feno e da água. Blue & Wittkopp (1981) consideraram que as concentrações de magnésio e fósforo na água podem variar conforme a região. As características do solo podem influenciar nas concentrações minerais do pasto ou do feno. Cohen et al. (2000) acrescentaram como fatores predisponentes o confinamento e o menor tempo de pastoreio e de exercícios.
Os sinais de dor são inespecíficos e na maioria das vezes consistem em dores leves e periódicas, distensão abdominal e peristaltismo reduzido. O agravamento do quadro ocorre rápido quando há ruptura intestinal. A palpação retal geralmente apresenta ausência ou pequena quantidade de fezes no cólon menor e reto, distensão gasosa das alças intestinais e presença de muco (HASSEL et al., 1999). A palpação do enterólito é rara, pois somente 40% da cavidade abdominal é palpável (KOPF, 1997). Jones et al. (2000) citaram que a dor está relacionada ao grau de obstrução e distensão. O líquido peritoneal costuma não apresentar alterações significativas, exceto quando ocorre necrose compressiva da parede intestinal.
O diagnóstico suspeito é baseado nos sinais clínicos e confirmado pela palpação retal quando possível. Na maioria dos casos o diagnóstico é cirúrgico. Cohen et al. (2000) afirmaram que em aproximadamente 42 % dos casos é possível o diagnóstico radiológico.
O tratamento é cirúrgico através de uma laparotomia pela linha média na maioria dos casos. A taxa de sobrevida à cirurgia é de 80 a 90%, desde que não haja lesão na parede da alça intestinal. Fatores como a localização do enterólito em porções não exteriorizáveis do intestino ou o peso excessivo deste enterólito podem comprometer o sucesso da cirurgia.
RELATO DO CASO
Um eqüino mestiço de 14 anos de idade utilizado para prática de pólo foi atendido na seção veterinária do 30 RCG com sinais de inapetência e apatia. A anamnese revelou que o paciente perdeu peso nos últimos meses e que algumas vezes não comia toda a refeição oferecida. Já havia recebido tratamento clínico para dois episódios de cólica. No exame clínico o paciente não demonstrou sinais clínicos significativos e por isto ficou em observação por 24 horas. Verificou-se que o animal demonstrou perda de apetite, redução da freqüência de defecação e discretos sinais de dor, como ficar deitado por muito tempo e algumas vezes patear discretamente o solo. À palpação retal verificaram-se fezes ressecadas e cobertas com muco. A paracentese e os parâmetros circulatórios não demonstraram alterações significativas. O paciente foi submetido à administração de laxantes por via oral e fluidoterapia. Apresentou melhora clínica, retorno do apetite e da defecação normal. No quarto dia após o início do caso observou-se novamente discreta apatia e redução na defecação. Baseado nos sinais clínicos e no histórico optou-se por uma laparotomia exploratória como forma de tratamento.
A cirurgia foi realizada no Hospital Veterinário da ULBRA. O paciente foi submetido à anestesia geral volátil e colocado em decúbito dorsal para permitir a abordagem da cavidade abdominal pela linha média. Foi realizada uma exploração sistemática da cavidade abdominal e constatado um concremento de grandes proporções no cólon dorsal direito, obstruindo o lúmen intestinal. A retirada da pedra foi dificultada pelo seu tamanho e sua localização, impossibilitando a exteriorização do segmento intestinal. Através da palpação percebia-se que a parede do intestino estava distendida e prendia o enterólito, dificultando seu deslocamento. Foi necessária a realização de uma enterotomia (abertura da parede intestinal) e, com a mão por dentro do intestino, fez-se a remoção de uma grande quantidade de bolo fecal para conseguir alcançar a pedra. Depois de retirado o enterólito e feita a síntese do intestino (fig 01, 02 e 03), as alças intestinais foram lavadas em abundância com solução fisiológica. O tratamento pós-operatório envolveu a administração de analgésicos, antiinflamatórios e antibióticos. O paciente se recuperou bem sem complicações pós-operatórias (fig 04).
 |
 |
| Fig.
01 Retirada de fezes |
Fig.
02 Retirada do enterólito |
 |
 |
| Fig.
03 Intestino suturado |
Fig.
04 Pós-operatório |
CONCLUSÃO
As enterolitíases são uma causa importante de obstrução intestinal em eqüinos e outros herbívoros. A patogenia da doença ainda é incerta apesar de ser registrada na literatura há muitos anos. A maioria dos autores concorda que a doença é multifatorial e citam vários fatores predisponentes. O eqüino foi exposto a condições inerentes ao confinamento: dieta com feno de alfafa, pouca ingestão de volumoso, maior chance de ingestão de corpos estranhos, limitação de exercícios e menor tempo de pastoreio, conforme citaram os autores Cohen et al. (2000), Bray (1995) e Hassel et al. (2004). No presente caso o núcleo encontrado foi um pedrisco (fig. 05). A informação de que outros animais do aquartelamento já tinham sido acometidos por este tipo de doença e que o eqüino já tinha sofrido dois episódios de cólica, foi útil na formação do diagnóstico suspeito. Conforme citou Blue (1999) um enterólito pode permanecer anos no intestino sem provocar sinais de obstrução e levar anos para formar uma pedra do tamanho encontrado. A pedra retirada tinha mais de 4 Kg (fig.06) e, conforme citou Lloyd et al. (1987), levou anos para se formar.
Convém ressaltar que o cavalo jogava pólo. Os sintomas de dor se assemelharam aos descritos por Hassel et al. (1999) e foram muito discretos. O peristaltismo estava presente e havia a produção reduzida de fezes. A palpação retal não permitiu palpar o enterólito apesar do tamanho exagerado. Não foi utilizado RX, uma vez que, nas instituições regionais não dispomos de aparelhagem radiológica com potência necessária para realizar o exame do abdômen de um cavalo adulto. Além disto, nem sempre o exame permite avaliar toda a cavidade abdominal (COHEN et al., 2000).
A decisão precoce pela cirurgia foi importante para o sucesso do tratamento. A abdominocentese revelou que o líquido peritoneal não apresentava alterações significativas demonstrando que não havia necrose compressiva da parede intestinal, conforme citaram Jones et al. (2000). O retardo na decisão pela cirurgia pode comprometer o resultado do tratamento. Devido ao tamanho e localização do enterólito a enterotomia no cólon e o esvaziamento do intestino foram fundamentais para a retirada do enterólito, porém a inevitável tração manual da pedra poderia ter provocado uma ruptura na parede intestinal, o que ocasionaria a contaminação da cavidade abdominal com fezes e futuramente levaria o paciente ao óbito.
Concluímos que o tratamento cirúrgico foi essencial para salvar a vida do eqüino e que os sinais clínicos podem ser muito discretos.
 |
 |
| Fig.
5 – Enterólito de 4,1 Kg |
Fig.
6 – Pedrisco no núcleo |
BIBLIOGRAFIA
BLUE,
M. G. colonic obstructions due to enteroliths in four
horses. Vet. Rec., v. 104, p. 209-211, 1979.
BLUE,
M. G. Enterolitiasis in Horses- a retrospective study of
30 cases. Equine
Vet. J. , v. 11, n. 2, p. 76-84, 1979.
BLUE,
M. G.; WITTKOPP,
R. W. clinical and structural features of equine
enteroliths. JAVMA, v. 179, n. 1, p. 79-82, 1981.
BOLES,
C. L.; HERTHEL,
D. J. Enteroliths and small colon obstruction. In:
ROBINSON, N. E. Current Therapy in Equine Medicine 2. Philadelphia: WB Saunders,
1987, p. 68-70.
BRAY,
R. E. Enteroliths: feeding and management recommendations. Journal of Equine Vet. Sci., v. 15, n. 11, p. 474-477, 1995.
COHEN,
N. D. et al. Risk
factors for enterolithiasis among horses in Texas. JAVMA., v. 216, n.11, p. 1787-1794, 2000.
HASSEL,
D. M. et al. Evaluation of enterolithiasis in equids: 900
cases (1973-1996). JAVMA,
v. 214, n.2, p. 233-237, 1999.
HASSEL,
D. M. et al. Dietary risk factors and colonic pH and
mineral concentrations in horses with enterolithiasis. J.
Vet. Intern. Med., v.18, n.3, p. 346-349, 2004.
KOPF,
N. Retal examination of the colic patient. In: ROBINSON,
N. E. Current
Therapy in Equine Medicine 4. Philadelphia: WB
Saunders, 1997, p. 170-174.
LLOYD,
K. et al Enteroliths in horses. Cornell
vet, v. 77, p. 172-186, 1987.
JONES,
S. J. et al. Condições
obstrutivas do intestino grosso. In:
REED, S. M. & BAYLY, W. M. Medicina
interna eqüina. Rio
de Janeiro: Guanabara-Koogan, p. 586-595, 2000.