 |
OS
SABRES DE OSORIO |
Após
a vitória sobre o governo despótico de Solano Lopez, os
sentimentos patrióticos dos brasileiros, aliados ao
entusiasmo e a admiração pelos feitos do Marechal Manoel
Luis Osorio, levaram os seus comandados – tendo à
frente o então coronel Manuel Deodoro da Fonseca – a
realizarem uma subscrição, entre os militares, para a
confecção de uma espada em ouro a ser ofertada ao
querido herói. O produto dessa contribuição, em moedas
de libras esterlinas, foi empregado pelo Coronel Deodoro
na confecção do Sabre de Honra, por um celebre artista:
o ourives Manoel Joaquim Valentim, português radicado no
Brasil há mais de 40 anos, com estabelecimento à rua dos
Ourives 61, Rio de Janeiro. Para que façamos uma idéia
do valor artístico da peça, basta citar que o Sabre, de
gosto vitoriano, teve seus desenhos iniciais executados
por Nicolau Fachinetti, estabelecido com “gabinete de
vistas especiais do Brasil e pintadas a óleo” à rua da
Quitanda 15, RJ, e, as pinturas e complementações dos
desenhos elaboradas pelos famosos pintores Pedro Américo
e Victor Meirelles, que tanto contribuíram para o
enriquecimento do nosso patrimônio artístico. Os modelos
da figuras e das ramagens decorativas foram executados
pelo não menos célebre artista escultor Chaves Pinheiro
e o cinzelador foi um português
em trânsito pelo Rio, que concluiu seu trabalho em
quatro meses. O custo total foi de vinte contos de réis.
Em 4 de junho de 1871, Osorio recebia o ofício
assinado pelo Visconde de Pelotas e, também, por José
Pinto da Fonseca Guimarães, G. Da Silva Martins, Luiz da
Silva Flores, M. Soares Lisboa e Thimoteo Pereira da Rosa,
em que lhe era comunicada a oferta da Espada de Honra em
nome do Povo Brasileiro e do próprio Exército.
O Marechal respondeu aceitando a homenagem e
embarcou de Pelotas, no dia 30 de junho, para Porto Alegre
– local da solenidade – a bordo do vapor Guahyba,
seguido por uma flotilha composta dos navios: Tupy, Pedro
II, São Leopoldo, Aviso e Jurity. Os festejos em sua
honra culminaram com a entrega da espada pelo então
Coronel de Artilharia Deodoro da Fonseca, no dia 6 de
agosto, Domingo, no Campo do Bonfim. Emocionado, Deodoro
ofereceu a espada, tendo as comemorações durado até o
dia 9 de agosto, quando foram encerradas com um grande
baile.
O Saudoso general Benício da Silva, um dos
principais representantes da cultura militar brasileira,
transcreveu, em conferência, os discursos proferidos na
solenidade.
Entrega da espada pelo Coronel Deodoro da Fonseca e
agradecimento do General Osorio.
“General, os oficiais que no Exército Imperial tiveram a fortuna de
servir as vossas ordens na campanha contra o Governo do
Paraguai, reuniram-se, por voto do mesmo Exército, para
que vos fosse dado um duradouro sinal que patenteasse a
amizade e admiração condignas de vossas ações. A história
dessa grandiosa campanha, onde o vosso nome faz lembrar os
postos militares do Passo da Pátria, Tuiuti, Humaitá,
Avaí e outros; onde a vossa espada abria o caminho da glória
e guiava os soldados da Aliança; onde a vossa intrepidez
e o valor calmo e refletido davam ao combate vitoriosos
resultados; onde os vossos feitos, em tempo algum
excedidos, levaram à posteridade o nome – Osorio –
que, por si só, muito quer dizer na vida militar; essa
história, General, está escrita em letras de ouro no
mimo que aqui vedes e que bem exprime uma guerra e suas
conseqüências vitoriosas, a par do nome – Osorio,
verdadeiro emblema do sublime e heróico militar. Tudo
isso, General, deu lugar aos sentimentos de amizade e
admiração consagrada por vossos comandados e a honra de
hoje entregar-vos esta oferta como prova do muito que vos
querem recebei-a, General, que é de coração.”
Osorio, comovido, recebeu a espada, proferindo
estas palavras:
“Sr Coronel – Entre as honras com que me têm
distinguido o Governo, do País, os Governos Aliados, e os
nossos compatriotas pelos serviços que prestei à Pátria,
à Aliança e à Liberdade na América, nenhuma é mais
sensível ao meu coração do que esta que hoje me confere
por vosso intermédio, o valente Exército que tive a
sorte de comandar. Ao seu Patriotismo e inexcedível
bravura, devo as vitórias que alcancei, e nossa Pátria
querida o brilho de suas armas e a glória de sua
bandeira. O Exército é o verdadeiro apreciador dos
trabalhos que juntos sofremos, dos obstáculos que
encontramos, das dificuldades que vencemos; é ele, pois,
o juiz imparcial dos serviços prestados a causa nacional
nessas ásperas campanhas das planícies da terras do
Paraguai. É por isso que me acho em extremo penhorado
pelo quinhão com que conquistou em tão dura guerra,
aceiteis, para transmitir a nossos camaradas, a manifestação
da profunda gratidão que voto ao heróico Exército
vingador das injurias da Pátria, e os sentimentos que me
inspiram o seu valor, o seu devotamento e incomparável
abnegação.”
Para o Exército
Brasileiro as relíquias mais preciosas legadas à Nação
pelo Marechal Manoel Luís Osorio, são o Sabre de Honra e
a Lança de Ouro, que se encontram, respectivamente, sob a
guarda do Museu do Exército e do 3º RCG – Regimento
Osorio, incorporadas que foram ao seu patrimônio conforme
desejo manifesto dos herdeiros do legendário guerreiro e
de todos os militares.
A seguir uma descrição sumária do Sabre de
Honra:
A LÂMINA – De finíssimo aço, ligeiramente
curva, tendo todos os demais componentes em ouro e
platina, adornados com brilhantes e rubis.
O PUNHO – Possui em sua extremidade uma cabeça
de leão, com olhos de rubis. Partindo da boca do leão,
pende o fiador com corrente de ouro e borla de brocado,
com franja de canutilhos de prata. Na guarda em forma de
“S”, enrosca-se um dragão, incrustado com vinte e
cinco grandes brilhantes diamantinos, encimado por uma
placa elíptica esmaltada de verde e rodeada de brilhantes
– representado Osorio, a cavalo, na batalha de Avaí.
Abaixo da cabeça do leão, uma placa com as mesmas
características, traz a dedicatória em ouro: DO EXÉRCITO
Ao BRAVO OSORIO. Acima e abaixo da placa, duas pequenas
estrelas de cinco pontas, de platina, com esplendor de
ouro. Do outro lado, bem ao centro, numa placa esmaltada
de azul, debruada de ouro e idêntica a sua oposta,
aparece a legenda com caracteres de ouro em três linhas:
CAMPANHA DO PARAGUAI. O total de brilhantes do punho e da
cruzeta ascende a 109, com o peso aproximado de 18,50
quilates, segundo laudo da Caixa Econômica Federal,
sendo: 2 brilhantes de 4 quilates; 8 brilhantes com 4
quilates e 50 pontos; 15 brilhantes com 5 quilates; 44
brilhantes com 1 quilate e 80 pontos e 40 brilhantes com 3
quilates e 28 pontos.
A BAINHA – Dividida em três seções, de ouro
polido, tem na face anterior ornados de ouro e duas braçadeiras,
formadas por um ramo de carvalho, símbolo do valor
militar. Na primeira seção estão representadas as armas
do Marquês do Herval: campo vermelho, leopardo de prata
batalhante, que empunha com a garra destra uma espada de
ouro. Chefe de azul com três estrelas de ouro; paquife e
coroa de Marquês. Na seção central em meio ramos de
carvalho e louro, uma alegoria da FAMA, aplicada dentro de
reserva elíptica com ornados cinzelados. Na parte
superior dessa seção, um listel atravessado em diagonal,
da esquerda para a direita, carregado com a inscrição,
brocante, “AVAI”, Acima e abaixo, duas folhas de
acanto integram o conjunto alegórico. Na terceira seção, ao meio às folhagens de acanto e ramo
de louro, outra reserva elíptica, moldurada
artisticamente por um troféu militar, tem ao centro uma
cabeça de leão radiante, símbolo da nobreza e da
coragem, tudo ornado com ramos de carvalho e louro. Dois
listeis atravessam a bainha em diagonal, da esquerda para
a direita, tendo, no primeiro, a inscrição, brocante,
“HUMAITA”. E, no segundo, “TUYUTY”. Abaixo desse
nome, em meio a um ramo de carvalho e folhas de arcanto,
em outra reserva elíptica, um troféu militar em cujo
centro figura uma águia sainte, símbolo heráldico
imperial. Mais abaixo, entre folhas de acanto, mais um
listel atravessado em diagonal, também da esquerda para a
direita, com a inscrição em relevo “VOLUNTÁRIOS DA
PRATA”. Na extremidade da bainha, a figura da VITÓRIA,
de pé, sobre o globo terrestre – de platina e cintado
de ouro – aponta para uma estrela. Contornado a ponteira
da bainha, um dragão.
PESO DO SABRE com a lâmina – 1.920 g.
Comprimento – 1,01m.
O TALIM – Forrado de veludo carmesim
possui duas placas ovais, de ouro, que prendem as guias.
Em cada uma das placas, com guilhochês, está aplicada a
Coroa Imperial, de ouro, com barrete esmaltado de verde e
circundada de uma coroa de louros; no fecho do talim, as
armas imperiais numa placa e circular, orlada de dois
ramos de louros atados nas extremidades inferiores por um
laço; debrum cravejado com quarenta e oito brilhantes. À
direita da placa da guia maior, há uma fivela com
folhagem cinzelada, encimada da Coroa Imperial com barrete
em esmalte verde. Em cada uma das guias, uma fivela com
ornados e coroas idênticos aos da fivela do talim. Das
guias, pendem dois mosquetões e preso à argola da placa
oval que encima a guia menor, um gancho em forma de
serpente com escamas abertas a buril.
O outro sabre de Osorio poderia ser qualificado
como o sabre de serviço. O sabre que ele usou como peça
de uniforme, para serviços na paz e na guerra. A
considerar duas situações função da própria
hierarquia militar, o sabre do alferes, do oficial e o
sabre do General. O sabre de general, que acompanhou
Osorio até seu desempenho como Ministro da Guerra no Rio
de Janeiro, sabre glorioso, testemunha de inúmeras e
gloriosas batalhas, não tinha o valor material do sabre
de honra, tinha, entretanto um valor maior no pelo papel
que desempenhara, efetivamente, no campo de luta como o
prolongamento do indômito militar. Este sabre acompanhou
Osorio em seu túmulo, no Rio de Janeiro, sob a estátua
que o homenageia, situada na Praça XV de Novembro.
Desconhecido de muitos no seu aspecto físico até o
translado para o Parque Osorio, o sabre era sempre
lembrado pelo papel que teria desempenhado numa das várias
historias reais que, quando narradas, caracterizavam o
lado humano do Patrono da Cavalaria Brasileira. Assim
relata J.B. Magalhães, em seu livro “Osorio, síntese
de seu papel histórico”:
“Os despachos demoravam muito, porque o Imperador
indagava tudo e às vezes até cochilava. De uma feita,
Osorio reparando que o Imperador dormia, deixou cair a
espada com estrondo o acordando. Este fato repetiu-se
algumas vezes, o que levou ao Imperador a dizer por fim:
- General, no campo de batalha nunca deixou cair
sua espada
Respondeu-lhe Osorio: “é
porque lá ninguém dormia”.
Com o translado dos despojos do General Osorio para
o Rio Grande do Sul, o sabre e suas as condecorações
foram recuperados e hoje se encontram em exposição no
Parque Histórico Marechal Osorio, em Tramandaí.
|

|

|
| O punho
do Sabre de Honra de Osorio |
O
Sabre de serviço que acompanhou Osorio a seu túmulo
encontra-se hoje exposto no Parque Osorio. O Sabre
foi restaurado após a exumação dos restos mortais
do Patrono da Cavalaria.
|